quinta-feira, 12 de março de 2009

Mini-contos #01

Parte I - Quando o espelho não reflete.
Logo após alguns dias que você retornar de sua jornada e eu estiver me recuperando da minha, tenho certeza que eu vou olhar para trás e ver seu semblamte perdido entre milhares, em uma festa, em um bar, ou em uma esquina qualquer. E nossos olhares vão se cruzar. E em uma noite qualquer, ou até mesmo na mesma, um de nós dois vai pegar o telefone e fazer a ligação. A fatídica ligação. E quando o telefone tocar eu vou saber que é você, mas não vou saber se devo atender.
Não vou saber até estar amarrando o cadarço do All Star de couro branco no dia seguinte preparando os pés para uma boa caminhada, ou apenas uma curta caminhada onde o peso do corpo possa ser sentido, mas também possa ser esquecido.
- Esse não sou eu quem está se olhando no espelho - penso comigo antes de decidir se o fim do enclausuramento está prestes a acabar - esse não é o mesmo cara que há dois ou três anos olhava o negro dos próprios olhos e via beleza. A beleza se perde com o tempo, o que fica são as marcas do que foi vivido e deixado de viver durante o tempo, e então quando as cicatrizes refletem na sua íris você só pensa em achar o colírio certo para curá-las.
Os primeiros passos são os mais difíceis. Díficeis pois a concentração que a mente precisa para caminhar acaba sendo desviada pelos olhares tímidos que buscam desesperadamente por detalhes de uma fisionomia que você mal reconhece perante uma história baseada somente em imagens, somente em idealizações de futuros e imagens. Imagens. Imaginações. Inimagináveis.
- Você perceberia a tristeza se eu percebesse a alegria?
- Você se alegraria se a tristeza houvesse ido embora?
Assim deveria começar o diálogo.


Parte II - Quando não atender o telefone deixa de ser uma opção.
- E a faculdade, depois desse tempo todo fora?
- Eu não sei, é meio complicado.
- Nada foi muito complicado para você, eu digo, você sempre soube escolher os caminhos corretos.
- Não... Eu nunca soube.
- Eu estou trabalhando no momento, só para não parecer que as coisas estão muito diferentes depois de todo esse tempo.


Parte III - Quando você percebe que as coisas mudam tanto que chegam a ser sempre as mesmas.
Ele vai se atrasar. Ele sempre se atrasa - depois um tempo de convívio existem certas coisas que você se condiciona e deixa de esperar correções, é o que eu chamo de intimidade incômoda - Mas de repente ele está lá, tão pontual quanto uma pessoa que espera encontrar alguem novo entrando pela porta de um coffee shop ou até mesmo no bar mais underground que vocês possam se sentir a vontade. A sensação do primeiro toque de mãos como um aperto de dois desconhecidos é óbvia a todos ao redor mas a sensação de conhecer cada centímetro daquelas impressões e linhas cabem só a mim, ou a você. Pois o nós ainda está enjaulado em algum lugar do passado e vai ser lá onde ele vai ficar.
- Oi.
- Vou pegar um café.
- Vou pegar um cigarro.
Enquanto paro no balcão para pedir seu café e ver se meus Malrboros Vermelhos estão disponíveis consigo sentir a preocupação vindo da nossa mesa, não de você específicamente, mas da dúvida que fica no ar se essa seria a coisa certa a fazer.
- Quanto tempo faz?
- Seis? Sete meses já?
- E aquele olhar que vem de baixo para cima com um sorriso sem jeito aparece, querendo dizer que foram sete meses maravilhosos.
Eu não aguento ver esse sorriso de volta sem começar a sorrir. Eu preciso retribuir a troca de risadas e dizer:
- Eu não consigo acreditar que nós estamos sentados aqui, assim!
- É...
E o desconforto fica confortável. E as suas alegrias transformam-se nas minhas. E seus olhos cor de mel lavam meus olhos negros.


Parte IV - Quando certas palavras precisam ser ditas e olhares precisam ser trocados.
O suéter marrom e o óculos de grau são propositais, eu preciso parecer bem. Na realidade eu estou bem, só curando algumas cicatrizes, assim como suas calças de moletom sempre vão me dizer que você nunca deixou de ser a mesma pessoa.
- Lembra quando eu quis dizer que estava apaixonado por você dentro do carro, vendo aquele nascer do sol?
- Eu já estava apaixonado por você.
- Não você não estava.
- E você ainda está naquela de "rockstar" não é?
- Pobre de mim
- solto um sorriso de um adulto de 25 anos lembrando das suas prepotências de jovem rebelde - Não, não... - eu digo -
Mas nós tivemos bons momentos naquela época, não é? Nos nossos sonhos de rock'n'roll?
E eu sinto os olhares vindo de sua direção pra ver se ainda sobrou algo daquela pessoa que você conheceu.
- Naquela época você estava apaixonado por mim?
Você perguntou. Preciso pensar na resposta correta.
- Sim, eu estava. Eu não estava doente naquela época, eu não estava - Ainda era amor, não havia virado obssessão. E novamente o meu olhar fixou na mesa durante alguns segundos e decidiu levantar diretamente para o seu, com as sobrancelhas curvadas pedindo uma última tentativa de ver se você ainda conseguia enxergar a mesma pessoa que você enxergava quando nossos corações explodiam de felicidade.


Parte V - Quando se elogia sem haver necessidade.
- E esse cabelo moderno?
- Foi assim que você me conheceu.
- Eu gostava.
- Aposto que não.
- Claro que eu gostava, era diferente - realmente, eu percebia naquela época seus olhares de admiração pra toda aquela ousadia que eu ostentava. E que hoje já não passa de um desleixo.
- E você continua ótimo. Como sempre.


Parte VI - Quando os sinos realmente param de tocar.
- Eu me senti muito pior depois, eu não entendia nada. Eu queria telefonar, mas sempre me disseram que não seria uma boa idéia. Eu não sabia... Eu não sabia como você se sentia. Eu queria apenas que a gente... nos encontrasse de novo.
O abraço apertado não responde nada, só diz aquilo que ambos sempre soubemos: Tchau.

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